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SOBRE A TEORIA LACANIANA: SIMBÓLICO, IMAGINÁRIO, REAL E OUTROS TERMOS.

  • Foto do escritor: Rodrigo Ramos
    Rodrigo Ramos
  • 11 de nov.
  • 5 min de leitura

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Toda vez que tenho amnésia alcoólica e sei que vou tomar uma multa federal — porque sei que fiz alguma coisa errada — dessa vez, de novo, gritei por incríveis sete segundos no jardim, na entrada da bodega, em frente à janela do delegado e da delegada do prédio, antes das 0h, talvez, tenha inconscientemente pensado que isso seria relevante. Pessoal de família, gente católica, do bem — só que votam no PL, então já viu, não me perdoam mais, nenhum segundo da minha voz, porque eu mando se foder e isso vai ecoando dentro do hall, do apartamento, é uma revolta... Enfim, eu me arrependo da vida: não acho o pessoal legal assim, mas me acho muito burro, sofro, moralmente é uma humilhação, minha mesmo e meus pais, que me vigiam de longe, chegam com palavras que me desesperam. É muita grana pra dar desse jeito. É daí que faço reflexões profundas, pra não deixar o supereu acabar com o que resta da minha dignidade.

O texto abaixo é resultado de uma dessas reflexões. Tem caráter técnico — então, se você não manja de psicanálise, cai fora. Mas, se quer aprender um pouco, pode te ajudar. O Simbólico em Lacan é a linguagem do Outro. Você também tem ali o Inconsciente, mas não se armazena um arquivo de memória nele, isso daí é coisa orgânica. O inconsciente não é um depósito de lembranças, o que se arquiva é da ordem do orgânico, não do simbólico... Ele repete coisas Significantes. E a repetição é uma tentativa, frustrada, de encontro com o Real.


O significante pertence ao campo simbólico, (você vai perceber que tudo que a gente conhece é, na verdade, do Outro, com "o" maiúsculo) é o que estrutura a linguagem e, por ela, o sujeito (você)... Não é tão simples, mas você pode visualizar: a palavra c-a-s-a-m-e-n-t-o tem um som que só tem significado para nós, que falamos português. Mas, além desse significado, existe o Significante! Algo atrelado a essa palavra que se articula com o sujeito. Mesmo quando você entende racionalmente uma palavra, há algo além do entendimento que te toca, e essa parte, a que te fode, pertence ao inconsciente. Tem gente que acha essa palavra encantada: casar, enquanto outros tremem, ou ficam irritados com o modo significante que essa palavra ressoa na própria subjetividade.


Na verdade, a palavra não significa nada por si só. Quando você escuta um idioma estrangeiro que nunca ouviu antes, aquilo não tem o menor significado para você. Portanto, a estrutura da linguagem lhe é apresentada pelo Outro, pelo simbólico. Falam de você, de mim, da putaria toda, antes de a gente falar. Assim, você é capaz de entender que não era nada antes do Simbólico Outro, você não era a reencarnação do Dalai Lama, então, o inconsciente surge também a partir do entendimento da linguagem.


Mas o Imaginário só ganha articulação simbólica após o reconhecimento narcísico, quando a criança se reconhece no espelho e começa a se ver como ‘um eu’. Antes do Imaginário, há algo perdido do Real! Experiências sem forma, com os sentidos, não simbolizadas, que depois ganham imagem e essência na relação com o espelho. Veja, você se lembra quando percebeu que você era você mesmo no espelho? Pois é, essa porra aconteceu, você não se lembra, claro, mamava nas tetas da sua mãe, tava aprendendo a ficar sentado, durinho, colocando tudo na boca...


Olha, essa ideia que você tem de si, essa loucura: isso é uma construção regida pelo simbólico, mas também uma imagem que você cultua, aquilo que você crê que vai te completar como ser humano. Curioso, porque essa fantasia de completude é sustentada pelo simbólico, mas vivida no imaginário, você fica lá viajando achando que um dia vai ser feliz plenamente. Isso é falso! Você é feliz com uma gozada, não é sempre, você não pode ficar gozando o tempo todo, imagina! Se bem que o gozo da bailarina tá no pé. Difícil explicar o gozo lacaniano, porque a gente também goza, aparentemente, é se dando mal, fumando cigarro, tomando bronca, gente que gosta de dor, que gosta de tensão, isso é normal... O que você precisa, como as coisas na vida, é sofrer com toda a desgraça, ser pleno e feliz não é uma formação autentica da singularidade, é uma ilusão publicitária.


Na moral, nem sei se existe isso, autenticidade, acho que a gente é um mosaico de identificações. O resto tá no escuro!


Enfim, o ideal do eu, em Freud, está fortemente articulado ao Imaginário, embora seja formulado no registro simbólico. Agora brisa mesmo é aquela galera que fica se olhando no espelho se achando perfeita, isso é narcísico, infantil e uma porra de uma construção imaginária, mas se te faz bem, continue, todo mundo vai se foder por aqui, não tem jeito.


No Real, em Lacan, não há nada para lembrar. É um lugar impossível, apenas um traço, um furo, um buraco, uma falta de entendimento, na verdade, nem lugar é, não tem registro, não tem como simbolizar o REAL! (Isso é muito foda e muito óbvio) Mas ele é um filho duma puta que está sempre ali.


Um exemplo está na incapacidade de conseguir dizer tudo.


Sempre falta algo para dizer, mesmo que a ideia seja a de se expressar plenamente, entende? Você tem raiva do seu namorado e pretende dizer tudo pra ele. Você solta lá suas palavras, manda ele zarpar, bota a cabeça no travesseiro e pensa: faltou isso e aquilo e aquela coisa. Ou seja, não se chega a esse “tudo”, mas ele é real. Está no Real lacaniano. E a gente pode encontrar ele nas definições de Desamparo Absoluto e Princípio de Nirvana em Freud, bem mais sinistras do que esse exemplo romântico.


O que eu penso que sou é do campo Imaginário, mas como digo isso é, evidentemente, simbólico. São vários significantes, que só têm sentido porque sua mãe fala português e sua professora te ensinou a ler. Mas também porque cada um desses significantes foi te formando mediante outros significantes e, nisso, uma cadeia de comparações e repetições entre eles tá acontecendo.


Além de palavras, significantes, podem ser gestos, atos, olhares, toques, maneiras. O inconsciente é assinalado por isso, por essa cadeia de significantes que te pressionam o tempo todo. O inconsciente quer ser escutado, mas ele não pode ser lembrado assim. É preciso encontrá-lo na análise: no registro do sonho, registros dos atos falhos, das metonímias, do comportamento, das metáforas, dos deslocamentos, da condensação onírica. Fora desse lugar, o inconsciente não é nada! É apenas um caminho de significantes que te leva à repetição. Aquele mesmo, ali, que te conduz ao Real. O que eu não posso negar é que há algum registro de satisfação em mim, na hora que xingo geral de racista fdp. Li Fanon por causa disso... A referência dele me dá alguma certeza. Daí eu repito!

 
 
 

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