Princípio de Nirvana
- Rodrigo Ramos
- 7 de out.
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de out.

Um amigo se foi domingo agora. Anteontem... Velamos e fomos ao cerimonial em homenagem a ele. Nessa fase da vida já vivi diversos lutos, mas esse, em especial, tem me deixando muito pra baixo, é sempre assim, sei lá... Nunca consigo expressar direito o que acontece, mas o mano era animado, ele tinha um alto astral diferenciado, uma risada hilariante, chegava a constranger o objeto de bullying. E esse mano tirou a própria vida!
Mais outro que fez isso. Porque, recentemente, a gente passou por essa, um outro grupo de amigos, na verdade, nenhuma relação com esse de agora, mas, pra mim, é a mesma coisa. E eu me lembro como aquilo me deixou afetado por meses, acho que até agora e eu tava saindo dessa situação e aparece ela de novo.
E a atmosfera é a mesma, eu vivendo numa situação de provável apaixonamento, uma condição boa, até... Se apaixonar é bom, mas vai lá um amigo e se mata.
Freud tem aquela teoria da pulsão de morte, aquela que foi uma mina que falou primeiro, Barbara Low, o tal do Princípio de Nirvana, depois tem o Lacan que fala do Real, nesse apontamento do que é inexprimível, aquilo que não pode ser simbolizado, nem representado, aquilo que não é nada, mas que existe e volta e revolta.
Tenho meu interesse pessoal nesse assunto! Então, essa parada de interrupção da própria vida, tem em mim, um significado de curiosidade, pra entender mesmo e os lugares que eu cheguei pensando nisso, obviamente, não são muito legais e não é de bom tom expor aqui, mas, talvez, seja o único lugar pra me colocar!
Para Freud e Low, a ideia da pulsão de morte, Princípio de Nirvana, é ligada ao interesse da matéria orgânica a uma descarga completa de tensão, reduzir a tensão a nível zero, de não excitação, uma busca natural do ser pelo estado inorgânico, uma força da natureza no sentido da paz absoluta! Obviamente que o Nirvana aqui para os psicanalistas, não tem nada de iluminado, é uma aniquilação da excitação, provinda de algo biológico. O Real de Lacan pode ser lido como uma reinterpretação estrutural da ideia de Low, mas Lacan tira do terreno biológico e leva para o lugar da linguagem e da falta.
Eu, por exemplo, tomo multas no condomínio, eu sei que não devo acordar os vizinhos de madrugada no sabadão, isso é uma coisa que não pode acontecer, só que daí eu chapo com os coleguinhas, esqueço do que faço, de como cheguei, toco violão, mando todo mundo cagar, repito isso diversas vezes... Mas pra mim, é uma coisa impronunciável, não sei como acontece, não sei o que disse, não vi nada. É engraçado para os outros, mas não é bom para o meu bolso e eu tenho vergonha de ser uma coisa que eu não reconheço, não sei quem eu sou, admito.
Minha vida é uma bela ilustração desse conceito complexo. Pra dizer pra você que, tá lendo essa pesquisa séria no campo psicanalítico, parece que todo mundo tem essa parada, essa Pulsão. Não é exclusividade de Freud, Nietzsche chamava isso de o Eterno Retorno, as coisas se complementam na história, dá pra entender que os autores encontram nos circuitos de repetição uma coisa que desafia a lógica do prazer e da razão. O que se repete, é o que não cessa de NÃO se escrever, diz Lacan, em seus seminários... Ele abre a ideia aqui de que a repetição não é só uma prisão, é também uma possibilidade de criação, se o sujeito se atravessar.
Você deve estar se perguntando: o que é se atravessar? O que precisa ficar claro é que pra Lacan o sujeito está sempre dividido, entre o que diz e o que deseja. Veja, sujeito não é personalidade, ou identidade social, é o efeito da linguagem, do que fala e do que é falado! O sujeito falador cria um vão, entre o que tá falando que é, vomitando aquele lenga-lenga, aquela convicção absoluta e o que ele é mesmo! Então, muito louco, os caras já estudaram isso! A fenda existe, porque a resenha do sujeito é muito diferente do que ele realmente deseja, ele nunca coincide com ele mesmo, porque algo dele fica fora do discurso, fica um buraco (tem horas que é melhor nem saber o que se quer) e isso fica nas trevas do inconsciente... Esse fantasma que se formula é um “roteiro” no meio disso, é um tapume, uma forma de se enganchar com o desejo, com o gozo, é uma forma de tentar tamponar a falta com algum objeto, pessoa, papel, ideal, pode variar bastante, por exemplo: eu vou ser feliz se for promovido na firma, vou estabilizar na vida se a menina casar comigo, essas coisas... Acontece que o furo, a falta estará sempre ali, o desejo vai continuar desejando, ele não acaba, esse entendimento na prática é difícil de chegar, essa é a travessia do Milton Nascimento, a gente precisa aceitar que esse processo é necessário, mas enganoso, considerando ainda o nosso fim inevitável, o que é foda. Entendeu?
Tenho um amigo artista, Arthur Doca, que explica melhor com muitas perguntas, ele diz: como ser feliz ao meio? Como a ponte cruzar? Como conseguir inteiro? Como se achar?



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