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Image by Rhema Kallianpur

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Toda vez que tenho amnésia alcoólica e sei que vou tomar uma multa federal — porque sei que fiz alguma coisa errada — dessa vez, de novo, gritei por incríveis sete segundos no jardim, na entrada da bodega, em frente à janela do delegado e da delegada do prédio, antes das 0h, talvez, tenha inconscientemente pensado que isso seria relevante. Pessoal de família, gente católica, do bem — só que votam no PL, então já viu, não me perdoam mais, nenhum segundo da minha voz, porque eu mando se foder e isso vai ecoando dentro do hall, do apartamento, é uma revolta... Enfim, eu me arrependo da vida: não acho o pessoal legal assim, mas me acho muito burro, sofro, moralmente é uma humilhação, minha mesmo e meus pais, que me vigiam de longe, chegam com palavras que me desesperam. É muita grana pra dar desse jeito. É daí que faço reflexões profundas, pra não deixar o supereu acabar com o que resta da minha dignidade.

O texto abaixo é resultado de uma dessas reflexões. Tem caráter técnico — então, se você não manja de psicanálise, cai fora. Mas, se quer aprender um pouco, pode te ajudar. O Simbólico em Lacan é a linguagem do Outro. Você também tem ali o Inconsciente, mas não se armazena um arquivo de memória nele, isso daí é coisa orgânica. O inconsciente não é um depósito de lembranças, o que se arquiva é da ordem do orgânico, não do simbólico... Ele repete coisas Significantes. E a repetição é uma tentativa, frustrada, de encontro com o Real.


O significante pertence ao campo simbólico, (você vai perceber que tudo que a gente conhece é, na verdade, do Outro, com "o" maiúsculo) é o que estrutura a linguagem e, por ela, o sujeito (você)... Não é tão simples, mas você pode visualizar: a palavra c-a-s-a-m-e-n-t-o tem um som que só tem significado para nós, que falamos português. Mas, além desse significado, existe o Significante! Algo atrelado a essa palavra que se articula com o sujeito. Mesmo quando você entende racionalmente uma palavra, há algo além do entendimento que te toca, e essa parte, a que te fode, pertence ao inconsciente. Tem gente que acha essa palavra encantada: casar, enquanto outros tremem, ou ficam irritados com o modo significante que essa palavra ressoa na própria subjetividade.


Na verdade, a palavra não significa nada por si só. Quando você escuta um idioma estrangeiro que nunca ouviu antes, aquilo não tem o menor significado para você. Portanto, a estrutura da linguagem lhe é apresentada pelo Outro, pelo simbólico. Falam de você, de mim, da putaria toda, antes de a gente falar. Assim, você é capaz de entender que não era nada antes do Simbólico Outro, você não era a reencarnação do Dalai Lama, então, o inconsciente surge também a partir do entendimento da linguagem.


Mas o Imaginário só ganha articulação simbólica após o reconhecimento narcísico, quando a criança se reconhece no espelho e começa a se ver como ‘um eu’. Antes do Imaginário, há algo perdido do Real! Experiências sem forma, com os sentidos, não simbolizadas, que depois ganham imagem e essência na relação com o espelho. Veja, você se lembra quando percebeu que você era você mesmo no espelho? Pois é, essa porra aconteceu, você não se lembra, claro, mamava nas tetas da sua mãe, tava aprendendo a ficar sentado, durinho, colocando tudo na boca...


Olha, essa ideia que você tem de si, essa loucura: isso é uma construção regida pelo simbólico, mas também uma imagem que você cultua, aquilo que você crê que vai te completar como ser humano. Curioso, porque essa fantasia de completude é sustentada pelo simbólico, mas vivida no imaginário, você fica lá viajando achando que um dia vai ser feliz plenamente. Isso é falso! Você é feliz com uma gozada, não é sempre, você não pode ficar gozando o tempo todo, imagina! Se bem que o gozo da bailarina tá no pé. Difícil explicar o gozo lacaniano, porque a gente também goza, aparentemente, é se dando mal, fumando cigarro, tomando bronca, gente que gosta de dor, que gosta de tensão, isso é normal... O que você precisa, como as coisas na vida, é sofrer com toda a desgraça, ser pleno e feliz não é uma formação autentica da singularidade, é uma ilusão publicitária.


Na moral, nem sei se existe isso, autenticidade, acho que a gente é um mosaico de identificações. O resto tá no escuro!


Enfim, o ideal do eu, em Freud, está fortemente articulado ao Imaginário, embora seja formulado no registro simbólico. Agora brisa mesmo é aquela galera que fica se olhando no espelho se achando perfeita, isso é narcísico, infantil e uma porra de uma construção imaginária, mas se te faz bem, continue, todo mundo vai se foder por aqui, não tem jeito.


No Real, em Lacan, não há nada para lembrar. É um lugar impossível, apenas um traço, um furo, um buraco, uma falta de entendimento, na verdade, nem lugar é, não tem registro, não tem como simbolizar o REAL! (Isso é muito foda e muito óbvio) Mas ele é um filho duma puta que está sempre ali.


Um exemplo está na incapacidade de conseguir dizer tudo.


Sempre falta algo para dizer, mesmo que a ideia seja a de se expressar plenamente, entende? Você tem raiva do seu namorado e pretende dizer tudo pra ele. Você solta lá suas palavras, manda ele zarpar, bota a cabeça no travesseiro e pensa: faltou isso e aquilo e aquela coisa. Ou seja, não se chega a esse “tudo”, mas ele é real. Está no Real lacaniano. E a gente pode encontrar ele nas definições de Desamparo Absoluto e Princípio de Nirvana em Freud, bem mais sinistras do que esse exemplo romântico.


O que eu penso que sou é do campo Imaginário, mas como digo isso é, evidentemente, simbólico. São vários significantes, que só têm sentido porque sua mãe fala português e sua professora te ensinou a ler. Mas também porque cada um desses significantes foi te formando mediante outros significantes e, nisso, uma cadeia de comparações e repetições entre eles tá acontecendo.


Além de palavras, significantes, podem ser gestos, atos, olhares, toques, maneiras. O inconsciente é assinalado por isso, por essa cadeia de significantes que te pressionam o tempo todo. O inconsciente quer ser escutado, mas ele não pode ser lembrado assim. É preciso encontrá-lo na análise: no registro do sonho, registros dos atos falhos, das metonímias, do comportamento, das metáforas, dos deslocamentos, da condensação onírica. Fora desse lugar, o inconsciente não é nada! É apenas um caminho de significantes que te leva à repetição. Aquele mesmo, ali, que te conduz ao Real. O que eu não posso negar é que há algum registro de satisfação em mim, na hora que xingo geral de racista fdp. Li Fanon por causa disso... A referência dele me dá alguma certeza. Daí eu repito!

 
  • Foto do escritor: Rodrigo Ramos
    Rodrigo Ramos
  • 7 de out.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 7 de out.

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Um amigo se foi domingo agora. Anteontem... Velamos e fomos ao cerimonial em homenagem a ele. Nessa fase da vida já vivi diversos lutos, mas esse, em especial, tem me deixando muito pra baixo, é sempre assim, sei lá... Nunca consigo expressar direito o que acontece, mas o mano era animado, ele tinha um alto astral diferenciado, uma risada hilariante, chegava a constranger o objeto de bullying. E esse mano tirou a própria vida!


Mais outro que fez isso. Porque, recentemente, a gente passou por essa, um outro grupo de amigos, na verdade, nenhuma relação com esse de agora, mas, pra mim, é a mesma coisa. E eu me lembro como aquilo me deixou afetado por meses, acho que até agora e eu tava saindo dessa situação e aparece ela de novo.

E a atmosfera é a mesma, eu vivendo numa situação de provável apaixonamento, uma condição boa, até... Se apaixonar é bom, mas vai lá um amigo e se mata.

Freud tem aquela teoria da pulsão de morte, aquela que foi uma mina que falou primeiro, Barbara Low, o tal do Princípio de Nirvana, depois tem o Lacan que fala do Real, nesse apontamento do que é inexprimível, aquilo que não pode ser simbolizado, nem representado, aquilo que não é nada, mas que existe e volta e revolta.

Tenho meu interesse pessoal nesse assunto! Então, essa parada de interrupção da própria vida, tem em mim, um significado de curiosidade, pra entender mesmo e os lugares que eu cheguei pensando nisso, obviamente, não são muito legais e não é de bom tom expor aqui, mas, talvez, seja o único lugar pra me colocar!

Para Freud e Low, a ideia da pulsão de morte, Princípio de Nirvana, é ligada ao interesse da matéria orgânica a uma descarga completa de tensão, reduzir a tensão a nível zero, de não excitação, uma busca natural do ser pelo estado inorgânico, uma força da natureza no sentido da paz absoluta! Obviamente que o Nirvana aqui para os psicanalistas, não tem nada de iluminado, é uma aniquilação da excitação, provinda de algo biológico. O Real de Lacan pode ser lido como uma reinterpretação estrutural da ideia de Low, mas Lacan tira do terreno biológico e leva para o lugar da linguagem e da falta.

Eu, por exemplo, tomo multas no condomínio, eu sei que não devo acordar os vizinhos de madrugada no sabadão, isso é uma coisa que não pode acontecer, só que daí eu chapo com os coleguinhas, esqueço do que faço, de como cheguei, toco violão, mando todo mundo cagar, repito isso diversas vezes... Mas pra mim, é uma coisa impronunciável, não sei como acontece, não sei o que disse, não vi nada. É engraçado para os outros, mas não é bom para o meu bolso e eu tenho vergonha de ser uma coisa que eu não reconheço, não sei quem eu sou, admito.  

Minha vida é uma bela ilustração desse conceito complexo. Pra dizer pra você que, tá lendo essa pesquisa séria no campo psicanalítico, parece que todo mundo tem essa parada, essa Pulsão. Não é exclusividade de Freud, Nietzsche chamava isso de o Eterno Retorno, as coisas se complementam na história, dá pra entender que os autores encontram nos circuitos de repetição uma coisa que desafia a lógica do prazer e da razão. O que se repete, é o que não cessa de NÃO se escrever, diz Lacan, em seus seminários... Ele abre a ideia aqui de que a repetição não é só uma prisão, é também uma possibilidade de criação, se o sujeito se atravessar.

Você deve estar se perguntando: o que é se atravessar? O que precisa ficar claro é que pra Lacan o sujeito está sempre dividido, entre o que diz e o que deseja. Veja, sujeito não é personalidade, ou identidade social, é o efeito da linguagem, do que fala e do que é falado! O sujeito falador cria um vão, entre o que tá falando que é, vomitando aquele lenga-lenga, aquela convicção absoluta e o que ele é mesmo! Então, muito louco, os caras já estudaram isso! A fenda existe, porque a resenha do sujeito é muito diferente do que ele realmente deseja, ele nunca coincide com ele mesmo, porque algo dele fica fora do discurso, fica um buraco (tem horas que é melhor nem saber o que se quer) e isso fica nas trevas do inconsciente... Esse fantasma que se formula é um “roteiro” no meio disso, é um tapume, uma forma de se enganchar com o desejo, com o gozo, é uma forma de tentar tamponar a falta com algum objeto, pessoa, papel, ideal, pode variar bastante, por exemplo: eu vou ser feliz se for promovido na firma, vou estabilizar na vida se a menina casar comigo, essas coisas... Acontece que o furo, a falta estará sempre ali, o desejo vai continuar desejando, ele não acaba, esse entendimento na prática é difícil de chegar, essa é a travessia do Milton Nascimento, a gente precisa aceitar que esse processo é necessário, mas enganoso, considerando ainda o nosso fim inevitável, o que é foda. Entendeu?

Tenho um amigo artista, Arthur Doca, que explica melhor com muitas perguntas, ele diz: como ser feliz ao meio? Como a ponte cruzar? Como conseguir inteiro? Como se achar?


 
  • Foto do escritor: Rodrigo Ramos
    Rodrigo Ramos
  • 19 de set.
  • 4 min de leitura
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Resolvi escrever para o LinkedIn um texto dizendo que eu sou pimpão e que a gente deve respirar, eu que fumo cigarro, escrevendo isso, que piada... A ideia era escrever um texto light para os empregadores não acharem que eu sou um extremista da pseudoesquerda, dizer que eu sei escrever no papel, uma coisa que eu não tô fazendo agora! Quem escreve no papel com lapiseira, com caneta, hoje em dia? Que loucura, isso não existe mais! Então, eu queria dizer que tenho um site onde coloco minha arte. Não deu certo, o site saiu do ar bem no dia do engajamento, a culpa não foi minha, a plataforma deu ruim. E eu tô rindo muito... Não consigo convencer essa galera de direita nem quando quero, perdi o tato, tá ligado? Eu simplesmente desprezo o pensamento dos caras, menos do Jay, um brother, eu o aturo e poxa, eu respeito o ser humano, né? Manter alguma empatia é o mínimo, afinal, eu ainda tenho alguma dignidade, exceto quando bebo muito vinho.

Trabalhar com pessoas de direita, no mundo corporativo, é quase que uma regra, CEO de qualquer coisa não costuma ser um sujeito contra o capitalismo, acham que o jogo tá bom! Que é isso aí que dá pra fazer! E o restante dos empregados pra lidar com essa situação, normalmente, vão pro evangelho, porque só recorrendo a Jesus mesmo! Daí é aquela lavagem cerebral danada, eu tenho medo de religião, o pessoal consegue ficar muito doido mesmo, sem usar droga nenhuma! Mas tem umas coisas que são bem bonitas, né? A cantoria gospel, a dança na umbanda, as roupas, a galera chorando, lindo se conectar com algo, eu preciso me conectar com algo além da internet, mas não tô conseguindo...

Nos últimos dias, tenho pensado muito naquela maldita escolha que eu fiz: eu poderia ter ficado lá no Zé, tomando um vinho firmeza, com a amiga mais firmeza ainda, linda, sossegado, sem nenhum tipo de problema, o maior problema foi a gente ter derramado vinho na mesa, o que não era um problema, porque era uma desculpa pra comprar mais vinho. Eu poderia, inclusive, ter deixado meu celular em casa, eu até queria fazer isso, mas fiquei com medo da amiga não me achar... Enfim, recebi um chamado e tomei a equivocada decisão de sair de onde eu estava e ir encontrar com a Pombagira, ela me avisou que estava um poço de ódio, tenho isso registrado, posso provar. Não me parecia tão ameaçadora naquele momento, mas mudou o rumo do meu navio. Pelo menos eu me desfiz dessa rota! O problema é que agora tenho certa fobia de pessoas.  

Voltando ao mundo corporativo, tem muita gente talentosa de esquerda nesses lugares, o pessoal mais progressista fica pianinho, não se manifesta muito sobre essas coisas, mas dá pra perceber porque a imagem não mente. Miguel diz que só tem gente de direita no mundo corporativo porque o pessoal reaça gosta de trabalhar! E a gente de esquerda é preguiçoso. Um argumento clássico! O cara tem que gostar muito de se foder, você pode pensar, mas na realidade, acho, o sentimento que se manifesta junto da frase é o de que há possibilidade de sucesso se você trabalhar duro. Cara, se você não é herdeiro, isso é uma puta ilusão pra manter a galera na fantasia, acontece com um ou outro, raro, pra esses chegarem na rede social dizendo que é possível, porque é, mas não vai acontecer com a gente, de ficar rico! Mas morra tentando, pra deixar herança e assim vai. Enfim, essa coisa é pra pouca gente, isso precisa ser fixado, não é como vestibular, é mais difícil, mano! O ser humano inventou a escrita pra deixar herança, pensa nisso! Outra coisa que precisa ser fixada é como o sistema (normalmente político e econômico) te mantêm dentro da fantasia, você não tem muita escolha, veja: não há nenhuma necessidade de, no mundo que a gente vive hoje, existir a miséria, ela simplesmente não precisa acontecer, entendeu cara? Ela não precisa de manutenção, ela pode acabar, tem recurso, memória coletiva, entende? Porque é muito comum a pessoa se estropiar, ela se afunda, isso vai acontecer pra sempre, mas no caso, a gente pode dar opções dignas, ou até, a gente pode tirar a pessoa dali, do buraco, daquela coisa indigna, dar opção, NÃO DEIXAR ELA MORRER DE FOME, LARGADA NA RUA, isso tem como, é possível fazer isso, a pessoa pode ter casa, o que vestir, ter o que comer, a extrema miséria no Brasil, essa extrema, sim, é um insulto... O sistema deixa a miséria acontecer porque você precisa ver o que pode acontecer com você nesse mundo. É bom que você tenha dinheiro e consiga comprar suas coisas queridos e queridas, a fantasia se mantém assim, você opta por continuar nesse sonho, porque é a melhor chance que você tem, é como sonhar com um bilhete de loteria, mas também serve de aviso pra você que pensa em sair da linha.

Essa é a chantagem, Bauman chamava essa conversa de Baixa-Colateral do Consumismo. Um mal necessário. Você pode pensar que é um incentivo, principalmente em nações como a nossa, grandonas. Diferente dos países nórdicos, europeus, diferente do Japão, sei lá, não posso falar muito sobre essas culturas, mas o que entendo é que são sociedades antigas, milenares, são sociedades avançadas, que sabem muita coisa das conquistas sociais, tanto que nóia europeu tem onde morar, o que comer, contenção de danos, o cara pode ficar doidão, mas num teto. Isso é avanço social camarada, o direito de se esborrachar em paz.


Daí tem o mundo e fora dele a Índia. Tenho três referências sobre ela, mas eu não manjo nada: um amigo de infância passou por lá, hoje ele é meu vizinho, ele insiste que aquele lugar fede a merda e que o pessoal é muito pobre. Uma ex-namorada foi lá também e me disse que o ambiente é de muito amor. Eu lia OSHO na minha adolescência, achava a coisa mais interessante da vida, essa mesma que se anseia, que consome a ela mesma... A vida se consome.  

 
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© 2025 RODRIGO RAMOS.

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